Entre setembros…

Depois de um ano, textos e personagens, este blog cumpriu sua função. Agradecemos aos poucos e valorosos leitores que nos acompanharam. Sobre ela? Ela segue por aí vivendo suas coisas e, de repente, em alguma esquina, numa tarde qualquer da primavera que se aproxima, você escute mais a seu respeito.

Mas, aí, será outra história.

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tempo-esquecimento

Coisa boa não se escreve. Tenho raiva de papel, letras, histórias escritas. Acho inútil e falso. História se conhece pelo olho e pela voz. E são contadas pelo avô, pai, parentes, amigos, velhos, senhores, senhoras. São o legado das coisas boas feitas pelos nossos antepassados – as pessoas que construíram o mundo de verdade. E, felizmente, chegam até nós. Nesse mundo de livros, as pessoas evitam a vida e o contato com os outros. Tem tanto medo da existência que se tornam incapazes e insensíveis.

Conheci a velha por causa dela. Um dia chegaram aqui e, sem perguntar nada, começaram a se encontrar. Ela pediu para que – uma vez por semana – a velha fizesse pães, bolos e outras coisas. A velha não era de muita barganha e, considerando as delícias em questão, o pagamento era razoável. Toda semana a casa tinha novos sabores, cores e formas.

Como os livros eram meus, o quarto com a mesa era meu e as histórias eram minhas, a velha não foi com a minha cara. Ela se achava tão auto-suficiente, isolada etc, que nunca fez questão de falar comigo. De fato, depois que ela foi embora, passamos muito tempo agindo como se nada tivesse acontecido. A velha trazia a comida, pegava o dinheiro e sumia. Eu ficava enfiado dentro da salinha, abraçando meus livros e escrevendo inutilidades. Dediquei algumas das minhas inutilidades à velha.

Com a ausência dela, a casa adquiriu um silência esplêndido. O ranger e o sacudir das intermintências do meu chão, ao serem invadidas pela velha semanalmente, foram o maiores vestígios de gente que me dei ao luxo de perceber. Lapsos solitários, aos quais eu sentia necessidade de esvair-me na sombra do tempo. Não tinha vontade de sair para o mundo. Naqueles dias – e eu tinha consciência deste tempo – as cores predominantes casavam com os tons sem-graça-escuro, o indiferente-esfumaçado e o monótono-gelo. Eu tinha a única coisa que precisava: o cheiro dela que permanecia presente em mim. O que eu precisava para tudo isso era o esquecimento. Mas, quanto tempo ele tem?

Na última vez que a velha apareceu trouxe – além das guloseimas – um cesto de flores e um envelope amarelo. Supreendeu-me a letra desenhada no bilhete que trazia no início meu nome e três pontos de exclamação. Eram traços de alguém acostumado ao desenho das palavras. Além disso, aquelas linhas me encantaram de forma surpreendente (mesmo quando agrediam as adjacências da minha pessoa). Ainda assim, acuso que aquelas letras romperam o ciclo do esquecimento em forma de luto de onde eu observava o mundo.

Procurei pela velha. Depois do bilhete, ela sumira da história. Nunca mais soube dela. Para meu próprio conforto, criei para a velha uma existência de personagem: mãe de um jovem poeta romântico que, nas primeiras explosões dos dias e das virtudes, deu fim a própria vida em nome do amor evaporado. Quanto desgosto materno havia naquelas palavras que, ditas para mim, continham uma mágoa do mundo inteiro!!!!!!
Quanto ódio eu também teria dessas letras miseráveis…
Mas eu sou autor e não personagem.

Manual de entrevista com personagens (1)

O autor(sic) resolveu implicar com tudo. Afinal, se sobram idéias e sobram personagens e toda essa conversa sobre a falta de emprego que anda por aí, não é uma boa aproveitar isso? Botar o personagem para trabalhar de verdade é coisa complicada. Alguns andam bem vagabundos, viciados em comodidades e, para isso, optam por se tornar verdadeiros clones. Clones de Gregor Samsa, Ulrich, Tom Joad, Lolita, Karenina, Diadorim, Joãozinho… toda essa mudança, em parte, quem sabe não é fruto dessa onda de profissionalização: escritores formados, escritores super-técnicos, escritores-assessores de imprensa, escritores profissionais que sustentam famílias e pagam as contas em dia preocupadíssimos com agenda de prêmios, palestras, trocos extras em eventos, mulheres charmosas. Os personagens começaram a exigir regalias.

Aí, você fica cada vez mais tentado a pedir pra eles: ei, gostaria que você fosse aquele personagem? Aquele personagem do livro tal, sabe? A tentação é dizer para os personagens: se você fizer isso teremos um livro bacana, vistoso, de capa dura e papel de qualidade, contrato assinado, aluguel em dia, editora, foto no caderno de cultura e jantar bacana.

O autor em questão nem acha que é escritor mesmo (aliás, o que é isto?), nem sabe se existe, digita umas frases no intervalo das leituras, entre um e outro café. É terrívelmente capaz de perder, com isso, a aura necessária do artista. Por isso, no espaço que lhe compete reina uma ditadura cruel. Um déspota nanico. É possível que, mesmo sem os adjetivos garbosos dos escritores atuais, ele considerar grande coisa essa mesa improvisada num quartinho de poucos e velhos móveis.

E não venham lhe falar do leitor, aí, ele vira fera e perde um pouco a compostura: O leitor que se foda! Algumas pessoas torcem o nariz para esse tipo de comportamento “low-profile”. Por isso mesmo, para se livrar de tais incomodações, o escritor resolveu recrutar seus personagens à moda antiga das empresas, como se fosse um legítimo funcionário do setor do departamento de Recrutamento e Seleção. O primeiro passo é uma entrevista.

(nesse ponto o narrador ri, afinal, este hábito de escrever gera tanta e tanta confusão na vida do autor que, supostamente, sua preocupação com os personagens é meramente para se livrar da tarefa árdua de dar continuidade a uma história grande. que seja!!!)

autor: E se você morrer na primeira linha?
personagem: não importa.
autor: você está aqui na minha frente, no entanto, sinceramente, não sei quando vou precisar do seu trabalho. Pode ser que eu implique com a sua cara, pode ser que eu conheça uma mulher maravilhosa e largue tudo para ficar um ano ou dois num paraíso tropical regado a sexo e drinques exóticos. Ou pode ser que eu encurte a história e você não caiba nela.
personagem: eu tenho outra alternativa?
autor: sim, você pode me sabotar.
personagem: mas aí é auto-sabotagem. Além disso, você já é desajustado o suficiente para que eu me preocupe a minha situação. Embora, não seja feio como muitos escritores, nem solitário como tantos outros, você é inquieto. Isso me basta. Se eu realmente me importasse com o que vai acontecer esteja certo que não faltam jovens escritores de sucesso por aqui. Aliás, você nem é jovem.
autor: esse teu pensamento é tão desapegado que parece blefe.
personagem: sou realista. prefiro que você sente a sua bunda na cadeira e produza umas linhas. A minha parte eu faço. Faça a sua.
autor: está tentando me dizer o que fazer?
personagem: não, estou dizendo que cada um cumpre a sua função.

nesse momento o autor pensou em teclar <backspace> (o que é um terror para o personagem comum). Mas esse personagem não fez nenhum gesto. Se tudo fosse um blefe, diria que é excelente. Uma vez no livro o personagem escapa para sempre e torna-se muitas vezes arrogante. Agora, existem poucos personagens arrogantes antes de, de fato, entrar para a história.

autor: você sabe que meu controle sobre você é temporário. uma vez que você se transformar em história eu perco o controle
personagem: posso ser sincero? não importa.
autor: mas não te importas com nada? e se o texto for uma porcaria? você pode acabar na prateleira com manuais de contabilidade da década de 60 ou o Método Cooper.
personagem: nesse caso, quem lembrará? prefiro que você faça e pronto. Não sou um personagem inexperiente, sei que todo autor – principalmente o iniciante – é volátil. Quem sabe quando chegarem os eventos, os cheques, as fotos e as baladas, quem sabe você não se voltará para outras coisas?
autor: definitivamente vou aproveitar tudo isso. Meus escrúpulos são poucos.
personagem: por isso mesmo que faça o que você achar melhor. O seu desafio é acabar comigo de alguma forma e o meu é cooperar com isso.
autor: você me parece um bom personagem, mas, a verdade é que estou com muita preguiça para escrever.

Memórias

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.

(fragmento I-Juca-Pirama, GD)

e agora?
Como assim “e agora”? Prefiro que ele sofra até explodir a fazer o que você está propondo.
Você tem certeza?
Não. Mas não quero fazer, não posso arcar com essa culpa.
Culpa? Você não acha um exagero?
Quem sabe… faça o que quiser, afinal, apenas disse o que eu acho.

Sai fora! quando apareceu na porta de casa era velho, acabado. Entrou – provavelmente descartado pelos antigos donos para morrer ao relento (quem suporta um ser arrasado?) – e assentou-se no capacho da entrada com uma determinação irresistível. Ela o alimentou durante meses. Praticamente cego, feio, sujo, cheirava mal. Fazia suas necessidades em qualquer lugar olhando para o ar alheio as regras. Bastava um assobio e ele se mijava todo. A comida escorria-lhe da boca. Em todos os cantos da casa havia as marcas de decrepitude. Bosta e sangue nas esquinas das imensas peças do sobrado. Era nítida sua decadência e logo, logo se transformaria em algo terrível: uma língua travada: sangue pelas ventas: convulsões a cada meia-hora. Ainda assim, para todo o lado que eu andava dentro da casa, ele me seguia.

As árvores nuas da avenida, o zunido do vento invadindo as peças da casa, as janelas fechadas e Sai fora! – em seu silêncio autista – parecia confortavelmente enroscado em seu cobertor de lã verde.

Um ano depois, o veterinário disse que, talvez, eu devesse aliviar o sofrimento do bicho. “É com você”, receitou. Me deu um remédio, cujo líquido era azul, e uma seringa. “Nem me diz o que é isso”. Coloquei no bolso e fui tomar um café. Não bastasse tudo em que eu estava metido, agora minha imaginação fértil fazia zunir as orelhas. “Basta escrever. O resto tá acontecendo o tempo todo ao seu lado rapaz”, o velho me disse numa ocasião.

Um bicho moribundo. Uma mulher inconstante. Ela. O que dizer sobre ela? Que ela sumiu quando a coisa toda apertou? Óbvio. Ela me fez guardar para sempre o cheiro dos dias horríveis que precederam a perda de Sai Fora!.

Ela me deu o conteúdo. Fudeu e eu pari. E a tão grande foi a tristeza que eu fiz um samba. (final revisado)

sala de espera

O personagem arfou com ares de tédio. “O maldito sempre diz que tem essas crises de inspiração. Não acredito e acho que, no fundo, isso é balela. Aceito como causa as tardes ensolaradas de um inverno cinza, vinho tinto, filmes vagabundos, mulhers, jazz, sono, pânico. Tudo isso eu posso aceitar, agora, crises de inspiração…”

Olhou para o relógio e faltavam quinze minutos para seis horas da tarde. Pensou em fumar, mas não lembrou se, de fato, era fumante. Em nenhum momento da trama foi descrita qualquer linha sobre o assunto e ele, que era um recém-introduzido na trama, sabia que o autor aceitava certas as exigências e extravagâncias dos seus personagens, mas, daí a querer meter o nariz na história, isso ele não aceitaria. Pior: era capaz de parar ali mesmo a história e o leitor não imagina como isso deixa os personagens em pânico.

Além do mais, por ter convivido com ela pouco até este momento, sabia que ainda era um personagem menor. Não se importava com isso. Acredita – e deve ser típico de todo o personagem – julgar-se significativo para o curso da história que ainda virá. (esta é mais uma cena pertinente ao exagerado ego dos personagens que o autor enfrenta).

Por ora, o que ele sabe sobre si mesmo está nas últimas linhas digitadas pelo autor:

Talvez tenha sido um dos únicos capazes de realmente entender o fato que ela não tinha uma moral diferente da maioria das pessoas. Em algumas coisas simplesmente era desprovida do que todos chamam de moral. Não se trata de relativismo. É como uma disfunção cerebral, um rompimento de uma sinapse qualquer. O fato é que ele entendeu, sem sofrer, a ausência de alguns sentimentos como piedade, remorso, medo. E, por isso mesmo, nunca esboçou nada além de conveniência e atração física por ela.

Auto-Interrogatório

Lá estava o personagem: ajoelhado com uma arma nas têmporas. Tinha vontade de chorar, mas sentia-se engasgado, fraco, lento. A mão que segurava o revólver era forte, dessas que dificilmente hesitam em puxar o gatilho.

Depois do medo, que durou um tempo indescritível – eqüidistante entre a vida toda e os míseros instantes do ultimo gole do café -, depois do medo escorreu a sensação de vazio enorme, como uma página em branco, uma morte sonhada. Aquilo deixou ainda mais irritada a mão que segurava o revólver, pois, de fato, não tinha a intenção real de atirar. Explodir uma cabeça vazia não tem graça.

A mão que segurava o revólver perguntou: O que você tem a dizer sobre ela? A essas alturas o a idéia de morte tinha vazado pelo caminho e o homem pensava em muitas coisas.
Sobre ela?, perguntou. Eu não falo sobre ela. Eu ouço que os outros têm a dizer. Eu fiz questão de esquece-La e agora lembro através do que me contam por aí.

O homem com a arma coçou a cabeça. Não tem mais graça matar o sujeito. Ficou tão desanimado que nem o mau-humor sobreviveu.

Fácil pra você, não é mesmo? Fácil viver do que os outros dizem, lembrar a lembrança dos outros e contar-lhes como coisa sua. É fácil ser o cabeça vazia desta história.

Guardou a arma no bolso e foi-se.

há vagas para heróis, assassinos e balconistas

O homem curva o pescoço em um ângulo de quarenta e cinco graus. Não é fácil vê-lo nessa posição. Perdeu-se na própria história. Dilui-se nos fragmentos assíncronos que sua lembrança brincou com o passado. Agora precisa jurar que tudo aconteu mesmo. Peças coladas precariamente na parede descolam o tempo todo. Ele as cola com o próprio cuspe em espaços em branco, desprezando a todo momento o buraco anterior, o buraco antes coberto e que agora é novo. A história faz sentido? Não.

Todos os elementos estão aqui: mulher, morte, amor, mentira, sonho. Tudo. Pontos com buracos enormes entre si. Nexos ausentes e um homem curvado que tenta contar a própria história, mas não lembra. O que aconteceu? Não sabe mais a razão dos arrepios. Sua memória brinca às escuras e um guiso dentro da alma a soar sem sentido. Não sabe o que procura. E na cadeira improvisada da mesa improvisada, dorme.

Que mulher é esta? vilã? Ou é uma memória algoz? Ou um narrador sem fixar os limites para a história. Ele poderia pelo menos deixar seu cômodo espaçoso na rua Pedroso de Moraes, 256 apto 805 e oferecer mais informações? Todos os livros – até os mais inacreditáveis – têm um homem pregado numa cruz. Faz parte da narrativas há, pelo menos, dois mil anos. Precisamos do homem responsável por tudo para decidir-lhe o destino. O narrador poderia ler alguns livros sobre coesão e coerência em narrativas. Alguma indicação?

A mulher escafedeu-se num lapso. Enquanto o narrador oscilava entre puta e asceta, os outros construíram o que ele não lembra. Há quem diga que ela nunca existiu e que tudo isso não passa de um bando de lorotas. Outros a aclamam heroína, a única capaz de salvar a história. Ela é capaz de fugir para uma nova história sem ser reconhecida, entendem? Ela é capaz de migrar para a página 53 de um escritor premiado pela academia de letras de alguma cidade litorânea e navegar num livros com páginas numeradas e, acreditem!, capa.

Daí, o que sobra é o homem curvado, o único vilão que temos para o momento, um vilão fraco, sem tensão dramática, um herói chifrado – se é que me entendem. O narrador é covarde demais para resgatar a personagem que a essa altura vive num romance remunerado. O narrador permanece a nos fazer reescrever uma história desconexa. É ele que aplica golpes injustos no homem como quem espeta agulhas num boneco Voo-doo.

E nisso é que há de se esperar do leitor. Como? Quando? De que maneira? Ainda não se sabe. Há de aparecer alguém para vingar a crueldade do narrador. Rezemos.

Impressões

o tio era um cara fechado, bruto. Lembro das suas enormes mãos entrelaçadas, os olhos a mirar um vazio que só ele era capaz de entender. Não era muito amigo das palavras e preferia a lida da madeira e do ferro. Seus companheiros eram pregos e martelos, estruturas moldadas e coisas que ele definia com a força dos seus punhos.

Muitas vezes pensei que o tio não tinha sentimento por mulheres. Não que não gostasse delas, pelo contrário, quando fiquei mais velho soube que ele frequentava a casa das meninas da Glória – um inferninho que nem existe mais. Um dia apareci com ela em casa e apresentei-a sem muita satisfação para o resto da família. No único momento que ficamos sozinhos, o tio comentou quase murmurando: até quando suspira ela é sedutora. Ela é um problema, rapaz.

Depois ele sumiu e nunca mais soube dele antes da mãe comentar sobre sua morte.

premonição vespertina

não existia corpo, nem rastros de sangue. Não sentia o cheiro inconfundível. Não havia fato visível, testemunho, prova. Nem crime.

Exceto duas mãos trêmulas diante de um telefone telefone.

Os Pés

Tinha pés feios, mas era uma mulher linda. Havia algo de “não” nela que não sabia bem como explicar. Talvez a maneira como juntava os lábios de criança embirrada. Talvez fossem seus pés, uma maneira de se negar ao mundo pela sua feiúra, ou talvez o contrário, essa própria feiúra seria a sua maneira de se mundanizar, de se conferir a si própria uma coerência com as calçadas imundas, com as salas tortas, com as sandálias falsificadas. Seus pés eram coerentes, ela não, ela era linda. Seus pés a negavam.