Depoimento#4

Quando meu filho a trouxe aqui, eles tinham acabado de entrar pra faculdade. Ele nunca tinha visto uma moça como ela. As moças da nossa rua iam à missa aos domingos, faziam tertúlias, copiavam versinhos no caderno. Ela não. Ela pertencia ao mundo dela. Poucos amigos. Pouca conversa. Aliás, falava muito de Política, de Arte, de Música. Mas ela mesma, nós nunca soubemos onde estava dentro de toda a aquela conversa que tinha sobre as “injustiças sociais”. Meu filho chegava tarde, algumas vezes, cheirando a cerveja. O pai dizia que ela não era uma moça séria: “Onde estava a família?” O menino se irritava. Foi uma das pessoas mais sem recordações que já conheci. Há pessoas que têm o espírito jovem, no presente, há outras que sentem uma saudade maior do que seu próprio tempo de vida como eu. Ela era tão linda. Tinha os cabelos pretos, compridos, muito bonitos. Quando acabou, tive pena do meu filho. Eu sabia que ia terminar como terminou, porque eu conhecia o tipo de mulher que ela era. Uma mulher que já “conhecia homem”. Alguém que já tinha sofrido muito. Mas meu filho, ele nunca tinha visto uma moça como ela.

Algum tempo depois, quando eu pensava que as coisas estavam quietas, andava pela rua com ele quando passou por nós uma moça que usava o mesmo perfume que o dela. Meu filho parou, aspirou, e me disse: “Mãe, vá em frente, lhe acompanho”. Olhei pra trás, ele estava sentado na parada de ônibus ao lado da moça, cheirando a moça.   Mas, no dia do aniversário da minha neta, semana passada, ele a viu na confeitaria. Ela continuava bonita, o cabelo mais curto, o rosto mais sério, também comprava um bolo, não era para o filho, aliás, ela não teve filhos, parece que nem tinha casado. Perguntei se ela o chamasse, ele iria. Ele me respondeu abrindo a geladeira: “Mãe, a vida é como iogurte, tem prazo de validade, esse aqui da Clarinha, por exemplo, está vencido, vamos jogá-lo fora!”.

Quando meu filho nasceu, foi como se eu já o conhecesse antes, como se tivéssemos nascido no mesmo dia, há muito tempo, antes de sua forma física. Mesmo ausente, eu o sinto, sei exatamente onde ele está agora, poderia telefonar para conferir. Ainda tenho medo que ele morra por causa dela.

Anúncios
Comente ou deixe um trackback: URL do Trackback.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: