depoimento #5

Olha, ela tinha essa horrível sina das pessoas diferentes: não olhava para o lado. Pensava sempre na primeira pessoa. Sempre com uma estranha devoção por si mesma. Para mim, ela se distanciou tanto do resto do mundo que perdeu a referência: as coisas pela qual se interessava oscilavam entre o novo absoluto – aquilo ao qual podia desfilar dentro -, ou o desprezo, que fazia dela mesma uma coisa sem valor, nula. Vai ver que por isso mesmo é ela só era capaz de desenvolver algum tipo de sentimento na inquietude, na irrealização, entende?

Claro, claro… quando a conheci, ela estava num tempo em que sua lista de relações confusas, violentas, equivocadas, desprezíveis, só aumentava. Eu era o único tipo de pessoa ao qual ela parecia dedicar-se, pois sua beleza fulminante não me atraía nem um pouco. Antes, me divertia com suas histórias e sua devoção histérica por mim, seu desprezo pela maioria dos homens.

Sem pudor, ela tirava dos outros para lançar sobre a nossa mesa. Assim, acabamos juntos na mesma casa. Não importa com a vida de seus homens, suas qualidades, nada. “São culpados por existirem”, dizia brincando com seu humor mais negro.

Posso te dizer que ela não era totalmente má. Seria um estúpido se dissesse isso. Foi ela quem me deu esta casa. Um dia, sem mais nem menos, viemos pra cá. Ela me trouxe sem dizer nada. Sentamos naquela varanda e, em seguida, entregou a escritura da casa. “Seremos felizes por um tempo”, ainda lembro do seus olhos brilhando.

Tivemos momentos em que ela parecia confortavelmente feliz pelo fato de eu também me interessar por homens. Sumia uns dias e, depois, retornava diferente. Levava tempo para ser a mesma.

Claro que nossos momentos aqui foram repletos de confusão. Ela insistia em dividir comigo seus homens. Obrigava-os a se entregar a mim. Sim, sim, confesso que por um tempo isso me excitou muito. No fundo, obviamente, isto era uma coisa cruel, sádica.

Você imagina, não é mesmo? Tudo que ela queria era me ver penetrando aqueles corpos. Queria meu suor escorrendo pelas costas e minha cara de êxtase em tudo isso. Nunca nos tocamos, nunca fizemos sexo, não que eu me negue completamente a fazer sexo com mulheres, mas, com ela nunca.

Um dia ela sumiu. Disse que ia buscar uma coisa que precisava, sim, foi exatamente o que ela disse. Não voltou. Sinceramente, não sei se ela ainda está viva.

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