depoimento #11

Você não se importa que a gente converse na cozinha, né?

Enquanto o café fica pronto podemos seguir com nosso assunto. Você quer que eu conte alguma coisa nova sobre ela, não? Temos gostos em comum, ou melhor, complementares. Ela adora cozinha e eu adoro cozinhar. Também gostamos muito de livros e, embora ela escreva e eu não, é raro a gente ter por perto alguém que realmente goste de livros. Desde meu bisavô minha família tem o costume de colecionar livros. Por isso, ela vinha para cá e passeava entre as estantes. Depois o senhor está convidado, se quiser, obviamente.

Como eu ia lhe dizendo, nossas conversas giravam em torno da comida e da literatura. Ela tinha um gosto apurado, mas sem nenhum tipo de conhecimento. Era da natureza dela apreciar coisas boas. Ao mesmo tempo, e eu achava um tanto chata essa mania que ela tinha: ser contra o prazer, militante e dogmática. Tinha essa idéia de que a maior parte das artes e fruições havia servido à causa burguesa e se formavam a partir da exploração das pessoas. Claro, no fundo eu até me divertia quando ela erguia os punhos para falar dos artistas que serviram à causa burguesa. Ela era um desses adoráveis radicais sofisticados por natureza e que vivem repletos em momentos de contradição. Geralmente nossas discussões terminavam quando eu simplesmente dizia: aproveite e relaxe, tudo isso é meu.

Não tenho muito mais para falar sobre ela. Lembro dos seus lábios vermelhos abocanhando com vontade docinhos como esses que o senhor está comendo.

Suas mãos, apesar de ela decidir levar uma vida descuidada, eram belas e delicadas – talvez muito mais delicadas do que ela desejasse. Acho que essa é a melhor coisa sobre ela: ela era delicada, bela e elegante e tais características – em muitos momentos – se tornaram fonte para tormentos e conflitos. Sabe, é difícil entender certas pessoas, como se sobre elas pendesse uma espécie de superioridade incompreensível e cujo efeito é uma espécie de auto-rejeição ou, mesmo, auto-destruição. Uma coisa absurda, se é que o senhor me entende.

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