Depoimento# 13

Funes, o memorioso, projetara um sistema original de numeração que em pouquíssimos dias excedera vinte e quatro mil. Em lugar de sete mil e treze, ele dizia Máximo Pérez; em lugar de sete mil e quatorze ele dizia A ferrovia. Assim faço com aquilo que leio. Dou a cada pessoa, cada objeto, um verso, um poema. Byron, Dante, Petrarca, Eliot, Unamuno. Ela imaginou que seria, dentro de minha contagem, o Spleen LXXVI de Baudelaire, mas  ela não tinha vivido tanto que pudesse merecê-lo, nem sabia do mundo como julgava. Era uma menina de quinze ou dezesseis anos. Então, eu lhe disse: “… que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/ a pureza da chama em que se consome os diamantes mais límpidos/ a paixão dos suicidas quem se matam sem explicação”. É essa a forma dela na minha cabeça. Um dia, apresentou-me o que escrevia. Era muito bom. Tão bom que tive medo. Hoje não a vejo mais.  Não precisa mais de mim. Ela precisa de vida e vida é coisa que sempre tive muito pouco.

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