depoimento #15

Você pediu, por telefone, que eu o encontrasse para falar alguma coisa sobre ela. Bem, acho que já devem ter falado muitas coisas e, de certa forma, não tenho muito além de obviedades. Não, ela não era óbvia. Para saber dela é necessário usar um filtro. Ou melhor, para viver com ela é necessário estar muito atento. Ela está empregnada da busca ao personagem… a verdadeira busca é dramática, entende? Não, não tente entender. O problema é o caminho, quando a gente não encontra o caminho, o escaninho certo onde guardar os papéis, nada parece acontecer. E a agonia ferve no estômago, abrindo e fechando portas, porções de suco gástrico explodindo nas tripas, neurônios queimando por segundo. Isso não é muito saudável, sabe?

Sobre ela, na verdade, que mais dizer que pudesse acrescentar alguma coisa a tudo que você já sabe? Duvido, por exemplo, que alguém saiba quantos anos tem. Ou como ela conseguiu aquela cicatriz embaixo do queixo. Duvido que alguém saiba como ela era chamada na infância, naquele tempo que tinha os pés ligeiramente grandes, maiores que as meninas de sua idade, pernas finas e desastradas. Nem, tampouco, o motivo de tantos livros na sua vida, em lugar de horas com as colegas falando sobre meninos, trocando confidências e beijos com antigo amor adolescente. O que fez com que ela seguisse um caminho tão incomum para pessoas como ela? Engraçado, acho que não estou te ajudando, não é mesmo? Mais e novas perguntas…

Ela entrava nos livros. Pisava de pés descalços nos bosques enfumaçados da ficção, nos castelos cheios de limo das filosofia, nos planetas gasosos da poesia. Um dia, ela pintou na parede um texto. Anotei nesta folha para deixar com você.

Com quem poderia reconciliar-me: comigo ou com o outro – os outros? Quem eram eles? Quem éramos nós? Reconciliação não era nem idéia nem palavra: era uma semente que, primeiro dia após dia, depois hora após hora, fora crescendo até converter-se numa imensa espiral de vidro por cujos veios e filamentos corriam luz, vinho tinto, mel, fumo, fogo, água de mar e água de rio, névoa, matérias ferventes, torvelinhos de plumas. Nem termômetro, nem barômetro: central de energia que se transforma em fonte jorrante que é uma árvore de galhos e de folhas de todas as cores, plantas de brasas no inverno e plantas de frescor no verão, sol de claridade e sol de sombra, grande albatroz feito de sal e ar, moinho de reflexos, relógio no qual cada hora se contempla nas outras até anular. Reconciliação era uma fruta – não a fruta mas seu amadurecimento, não seu amadurecimento mas sua queda. Reconciliação era o planeta ágata e uma chama ínfima, uma mulher no centro dessa esfera incandescente. Reconciliação eram certas cores entretecidas até se transformarem numa estrela fixa, à frente do ano ou à deriva, em mornas aglomerações entre os encadeamentos das estações: a vibração de um grão de luz encerrado na pupila de um gato estendido num ângulo do meio-dia: a respiração das sombras adormecidas aos pés do outono esfolado vivo: as temperatura ocres, as rajadas cor de tâmara, vermelhas, vidradas e as poças verdes, os vales de gelo, os céus errantes e em farrapos reais, os tambores da chuva: sóis de tamanho de um quarto de hora mas que contém todos os séculos; aranhas que tecem redes translúcidas para bichos infinitesimais, cegas e emissoras de claridades; folhagem de chamas, folhagens de água, folhas de pedra, folhagens magnéticas. Reconciliação era a matriz e vulva, mas também pálpebras, províncias de areia. Era noite. Ilha, a gravitação universal, as afinidades eletivas, as dúvidas da luz que, às seis da tarde, não sabe se fica ou vai. Reconciliação não era eu. Não era você nem casa, nem passado nem futuro. Não era lá. Não era regresso, não era voltar ao país de olhos fechados. Era sair ao ar livre, dizer: Bom dia.
fragmento do Mono Gramático, de Otávio Paz.

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