Depoimento# 16

Sou a mais nova de quatro irmãos. Fui a única a fazer faculdade graças ao meu irmão mais velho. Meu pai era marchante e minha mãe, cozinheira. Meu irmão começou lavando prato, ainda criança, com minha mãe no Hotel. Depois, passou a cozinhar e a ajudar na decoração das festas. Meu irmão era diferente. Gostava de pensar, de ler. Adorava História da Arte. As festas que meu irmão promovia eram luxuosas. Lembro-me de um baile de debutantes que ele fez baseado em As Meninas de Velásquez, outro, em Alice através do Espelho e teve um também que foi no Nascimento de Vênus de Botticelli. Acredito que as pessoas que pagavam pelo trabalho dele não entendiam a grandeza daquilo. Por isso, ele me dizia para estudar, porque “pobre pensa, rico paga, assim a gente come e gasta”. Mas o que houve entre meu irmão e essa mulher que você procura, e que eu conheci muito bem, foi uma história de amor irrealizável, portanto, inesquecível. Eles eram apaixonados um pelo outro. Ela, por ele inteiro: cabeça, corpo, alma; mas ele, pela cabeça e pela alma dela, o corpo, ele não desejava. Meu pai não tinha como entender que o que distinguia meu irmão dos outros, não começava pela sensibilidade, pelo senso crítico, pelo lado político, por isso, cedo, meu irmão foi expulso de casa. Eles, ele e ela, se conheceram no Reveillon do hotel mais luxuoso dessa cidade. Ele a descreveu, ainda me lembro, como a tristeza que harmonizava aquele quadro de alegria falsa ou talvez, a única coisa falsa daquela alegria verdadeira. O casamento deles foi no final dos anos oitenta no Teatro Universitário com a peça Deusa do Asfalto, retirada do título de uma música interpretada pelo Nelson Gonçalves. Teve cobertura da imprensa. Um sucesso. Ela, uma “menina prodígio” com 19 ou 20 anos; ele, apesar de ser uma figura conhecida, era alguém à margem: pobre, preto, homossexual e autodidata.Assim como o dia em que se conheceram, houve o dia em que se desconheceram. Meu irmão foi embora: Rio ou São Paulo. Acho que foi a única vez em que ela foi deixada, se houve outras, é algo que ela guarda. Meu irmão sumiu no mundo, mas não voltou curado e sim, doente, muito doente, muito pobre. Ela e meu pai foram buscá-lo. Como meus irmãos eram contra, não o trouxeram pra casa, levaram-no para uma periferiazinha onde ela, praticamente, passou a morar com ele. Havia comentário de toda espécie: que ela era amante de homem casado, bandida, garota de programa, porque ela era tão bonita, tão elegante que seria sempre “estranha” onde quer que fosse. Enquanto isso, escrevia para jornais, revistas, terminava a faculdade. No dia em que meu irmão morreu, ela foi atropelada quando saía da casa deles, La Casa Amarilla. Não pode ir ao enterro, fraturou a perna. O enfermeiro que a atendeu nos entregou, no dia seguinte, o papel com o epitáfio de meu irmão anotado, porque ela, claro, não se sabe como, havia sumido do hospital. O epitáfio era o trecho daquele samba do Ary Barroso: Seguirei sempre cantando na batucada da vida. Não ouvi mais os jornais falarem sobre ela. Acho que quis desaparecer de si mesma. Talvez tenha outros nomes, outras histórias. Foi a melhor pessoa que já conheci. Mas sei que há quem diga o contrário.

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Comentários

  • glaucia  On outubro 18, 2007 at 12:59 pm

    Queridos, tá ótimo! Também quero deixar meu encontro com “ela” aí gravado. Vai que isso a traga de volta. Vai que ela apareça e me salve Vai que nós e ela tenhamos solução.
    Beijos

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