depoimento #19

…o anjo da dor fala todas as línguas e conhece todas as palavras, mas o anjo da felicidade não abre a boca senão quando pode falar duma felicidade que até o selvagem consegue compreender. A desgraça já saiu da infância há centenas de anos; a felicidade parece que ainda dorme em todas as línguas”. **

Admiro uma pessoa que pega um avião e viaja horas para simplesmente resolver uma questão tão subjetiva, íntima, etérea? É como se eu já esperasse: um dia qualquer alguém viria até aqui para falar comigo sobre ela.

Como você, ela marcou uma visita. Isso é relativamente comum. Geralmente são jornalistas ou jovens querendo algum tipo de conselho. E ela chegou aqui com uma mala. Depois de trocarmos meia-dúzia de palavras, pediu para trabalhar comigo. Foi tão rápido que não tive como negar, entende? Ela foi tão persuasiva que acabei cedendo por curiosidade.

Logo, numa tarde comum, numa dessas inúmeras tardes comuns, em que eu fico o dia inteiro anotando fragmentos de livros, escrevendo para revistas, olhando para as árvores por esta janelinha e catando idéias entre o movimento dos caminhantes, assim, de uma hora para outra, eu tinha uma assistente. Não me pergunte para fazer o quê …

Vocês dois tiveram uma reação parecida ao chegar. É sim, sem perceber você deixaram entre os lábios e a testa um desapontamento inexplicável. Talvez, pelo fato de todos os dias eu me enfiar nesse escritório velho e perdido aqui neste canto anônimo da universidade. E, mais, depois ela ficou ainda mais constrangida pelo fato de eu me sentir absolutamente confortável nesta situação. E, no final do dia, sempre toco meu cavaquinho na roda de samba dos velhos lá no boteco. Também Isso a deixou confusa, eu acho. Mal ensaiou uns passinhos quando foi lá… preocupada não sei com o que?

Não sei de você – afinal, não faz uma hora que nos conhecemos e ainda não ouvi nada a seu respeito – mas ela ficou desapontada. Quem sabe, ela esperava que eu tivesse asas, ou algum tipo de luz diferente. Ou, pelo contrário, dentes podres e sujos. Camisas de flanelas poídas. Não sou nada disso. Se existem coisas extraordinárias ao meu respeito, amigo, todas estão em meus livros.

Voltando ao fato que te trouxe aqui, ela veio aqui procurando alguma coisa que não encontrou. E quer saber: não vai encontrar nunca. É difícil explicar, mas, a verdade é que ela veio aqui em busca de um caminho. E ela é o caminho. Você entende? Não há uma porta para nenhum lugar. Não existe o momento em que uma felicidade maciça tomará conta do seu corpo e alma. E, provavelmente, enquanto viver assim, ela não saberá distinguir os grandes momentos, pois nem aos pequenos ela reservou espaço. Deixará passar entre as mãos imensas felicidades, obcecada por um gozo pernicioso, que é onde paira a agonia de sua existência. É preciso ter conhecimento sobre a felicidade. Experiência prática, como sexo. Depois de um tempo perdemos uma boa parte da percepção de sua existência e seus processos.

Enquanto ela ignorar isto, a vida será um desnecessário vagar por aí. Não, não, você não pode fazer nada a este respeito. Eu não disse o que estou te dizendo para ela, não. Não me cabia resolver esta parte da história.

Olha, vou me reservar o direito de preservar as coisas que dizíamos um ao outro. Na verdade, a maioria delas, era bastante desinteressante e cotidiana.

 

**fragmento de A sabedoria e o Destino, Maeterlinck

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