depoimento #21

Sei, sei… você quer saber dela. Deixa eu te dizer uma coisa…

A maioria das pessoas está ocupada em justificar a relevância de sua vida. Construímos uma monte de baboseiras baseados nesse princípio: somos relevantes demais para nós mesmos. E vamos colocando a argamassa nesse dia a dia que, em grande parte, é de produzir relatórios para uma empresa qualquer, uma filha da puta duma empresa que produz lixo e consumo. Todas elas o que produzem? Lixo e consumo. Você seria capaz de negar isso?

Do mais arrojado filho de sociólogo ex-comunista até o mocinho que fez curso nos EUA, todos estão empenhados em fazer relatórios super-importantes que mostrarão para a diretoria como o faturamento cresceu em relação ao semestre passado. E, quando não estamos com o gerente grudado no colarinho apertando nosso pescoço, articulamos pela internet umas boas férias num canto qualquer, cuja paisagem varia da miséria de regiões pitorescas, com resorts e praias cheias de negrinhos suados trabalhando por uma miséria; até a mau-humorada Europa, com seus prédios velhos fedendo a mofo, seu trânsito confuso e seu cafezinho caríssimo. Na maior parte dos casos, nunca vamos para Tirana, amigo. Nunca. Queremos é encher a cara de entorpecimento para disfarçar o vazio da existência. Trabalhamos feito imbecis para ter em grande quantidade sexo, drogas e rock´n´roll. Variam os estilos e quantidades, geralmente por conta da grana que cada um tem no bolso.

Para não livrar nossa cara da estupidez ferramos uma vida tão bacana com um monte de auto-justificativas. E estudiosos especializados fazem pesquisas relevantíssimas que resultarão, na melhor das hipóteses, em mais estudos até que chegar o momento da velhice, aposentadoria. E assim, seus estudos serão passados para outra pessoa que acrescentará vírgulas, atualizações bibliográficas etc.

Mergulhamos com a boca aberta para encher a pança dessa geléia. Comemos até explodir. Intelectuais gordinhos ou magrinhos esquálidos que se orgulham de umas linhas bonitas, ou imagens cheias de significado, ou filmes caríssimos assistidos por eles mesmos. Depois assistimos qualquer obra, enchemos a cara com vinho duvidoso, comemos queijos e salames e fazemos conferências em botequins. No final de tudo a depressão toma conta do corpo e, de novo, contamos um monte de mentira para nós mesmos. E dormimos.

Não me excluo de nada. Não faço apologia a meu próprio respeito. Agora, não me peça para achar grande alguém coisa alguma e nem dizer que essas coisas valem à pena.

Estou também preocupado em manter o meu “padrão de vida”. Fazendo concessões e rodeado desses cliclês da classe-média, tais como: “a gente precisa comer” ou “não dá para deixar a felicidade passar”. Você não ouve essa porcaria o tempo todo?

E, a despeito de tudo mais, o que dizer sobre ela? Ela tenta. É o melhor que posso dizer sobre ela. Você me entende? E vive transtornada por isso.

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