depoimento #25

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Ela sentava nesta cadeira. Sim, esta aí que o senhor está sentado. E, agora, olhando o senhor aí, lembrei dela. Não, não, nem vou tentar explicar. Vai ver que é aquela idéia que, depois de um tempo, a gente fica parecido com quem convive.

Não é bonita a vista? Esse é o melhor bistrô da Mouraria, com certeza.

Quando chegou a Lisboa dava pra perceber que, de alguma forma, se tratava de uma fuga. Afinal, a maioria chega aqui em busca de uma vida nova. Quem se manda de um lugar para o outro cria expectativas. Meu medo inicial foi que ela estivesse metida em tráfico, prostituição, crime violento. Não que ela tivesse essa cara, isso não. Mas, hoje em dia, a gente não pode saber dessas coisas. Muita gente que vem pra cá para fazer isso.

A primeira vez, ela veio como cliente. Reconheceu meu sotaque. Depois, como o senhor pode ver, a loja tem essa especialidade de vender produtos franceses. Os portugueses têm uma relação muito íntima com os franceses. Ou melhor, houve um tempo que muitos deles foram para França em busca de uma vida melhor. Hoje em dia, a vida aqui melhorou, mas não é que o país tenha mudado.

Quando ela fala francês dá gosto. Um sotaque bonito, sonoro. Eu e os outros franceses que passavam por aqui, clientes, não cansávamos de ouvi-la falar. Naturalmente, ela veio trabalhar aqui… não lembro se fui eu quem propôs… ou se ela simplesmente chegou e ficou até quando quis. Claro, a gente falava muito mais em português, sim.

A única coisa que era impossível saber dela era o seu passado. Odiava falar sobre o assunto e, para ser sincero, ela só deixou escapar era o fato que fazia traduções do francês. Fazia isso profissionalmente e, tempos depois, estava fazendo traduções para uma editora daqui, a Assírio & Alvim. Ela podia ter ido embora, mas, enquanto esteve em Portugal, sempre trabalhou comigo. Não pagava muito e, sinceramente, parece que ela nem dava muita bola para isso. Tinhas uns hábitos estranhos. Nunca ia conosco para outros lugares, nem mesmo para a praia. Era sempre do trabalho para casa. Nunca conheci ninguém através dela. Nada.

Acho que ficou…. deixa eu ver… uns três anos. Foi em 1998, naquela fase de o país trocou de moeda. Portugal estava uma zoeira – era obra por todo o lado. Mais ou menos como se a Europa quisesse limpar a casa, entende? Eu moro aqui desde 1990 e nunca tinha visto uma reforma tão grande na cidade.

E um belo dia ela disse que ia embora. Não fiquei triste, pois sempre esperei que ela tomasse a decisão daquela maneira: de uma hora para outra. Não disse pra onde ia. Não disse nada, mas, foi muito emotiva com todos nós. Eu ganhei um livrinho de poesias do E.M. Cummings com um bilhete curto. Trouxe para o senhor ler:

Para os amigos: vou embora. Para os mais amigos: aproximo.
Nas tardes bem ensolaradas, borbulhas e cócegas na ponta do nariz para você.

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