depoimento #26

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Era a quarta vez que ela dormia num lugar desconhecido. A primeira fora no dia da sua entrada para o convento; a segunda no dia de sua chegada a Tostes, a terceira em Vaubyessard, a quarta era ali; e em todas elas sentira no começo de uma fase nova na sua vida. Ela não podia acreditar que as coisas pudessem surgir sempre iguais em lugares diferentes; e, uma vez que a parte já vivida fora má, tinha esperanças que o que restava viver seria melhor.*

Quantos bons tradutores você conhece? Ela bateu na editora e trouxe uma tradução de… bem, não lembro agora. Mas, o que ficou gravado na minha cabeça é que se tratava de algo com uma personalidade incomum. A partir desse encontro, as tardes de quinta-feiras sempre aconteceram neste café. A editora fica há duas quadras daqui. Tá vendo aquele casarão branco?

Nunca deixou currículo, contatos, nada. Quer dizer, eu tinha um telefone dela, porém, nunca liguei. Sinceramente, não havia motivo para ligar. Ela sempre foi pontual e entregava as traduções em tempo. Algumas brilhantes, outras nem tanto. Diria que o trabalho dela era bom e, em certos momentos, genial. Numa quinta-feira ela não apareceu, não mandou recado, não ligou. Tive a impressão que não nos veríamos. Acertei. Que mais posso falar sobre ela?

*Madame Bovary, Flaubert.

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