depoimento #33

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Assim dançamos, em ritmo gelado e frenético, com ondas curtas e ondas longas, uma dança no interior da taça do nada, com cada centímetro de luxúria medido em dólares e centavos.*

Ela é apenas um nome. Mesmo assim ninguém tem certeza se é verdadeiro. Pode chamar Tereza, mas, também, Carla, Verônica, Cristina. Ela disse muitas coisas quando estava por aqui. A maioria mentira. Ou melhor: invenção. Suas invenções são compensações do cotidiano, as formas que ela inventou para lutar com a realidade na corrida para o inatingível. Nada mais do que formas de trapacear os seus medos e horrores.

Veja bem, aqui aparece todo tipo de pessoa. Todo dia a empresa contrata e mesmo assim, no início da madrugada a fila de candidatos renasce. É como um verme amputado que se regenera. Tem dias até que eu me esqueço que são pessoas. Gente desesperada por grana, gente que precisa de uns trocados, gente não conseguiu coisa melhor, gente ambiciosa, gente honesta, marginais. O emprego é simples, o salário miserável, basta atender e realizar telefonemas com um único objetivo: fazer o cara do outro lado da linha pagar ou desligar na cara dele. Não há mais que isso e mesmo assim diariamente dezenas caem fora por falta de condições.

Deficientes, velhos, prostitutas, filósofos desempregados, técnicos em computação, mães, avós, travestis, médicos, cientistas, tatuados, manicures, faxineiras, viciados, escritores, nerds – para todos arranjamos um lugar. Claro que a empresa tem salários diferentes. Meu amigo, esse não é um negócio para se ter escrúpulos.

Você não imagina como fica isso aqui quando a empresa tenta colocar critérios para seleção. A fila de desesperados aumenta ainda mais. Tem gente que trabalharia por um copo de café. Tem gente que quer trabalhar aqui para ficar junto de outras pessoas. Gente que não precisa, entende? Mas, como agora é final de ano, empregamos a maioria dos que aparecem na fila. Final de ano é o período em que as pessoas se enfiam em comprar na busca desenfreada de presentes e outros lixos. Depois de um tempo por aqui você fica com nojo destes períodos.

O nível às vezes fica tão baixo que as pessoas diferenciadas são promovidas praticamente na hora. Foi o caso dela. Nunca entendi o que fazia aqui. Mas, acredite, não é a única. Centenas de pessoas abandonam suas profissões de executivo, técnicos, cientistas, gerentes, diretores, atletas e tudo mais. Muitos não suportam a pressão, o cinismo, o maldito estilo de vida a que são submetidas. Aqui sua preocupação com o mundo é zero. Quando você passa por aquela porta a preocupação é nossa em fazer com que saia do mesmo jeito que entrou. Não toleramos nenhum tipo de coisa que possa atrapalhar o andamento do trabalho.

Mas não temos muitas confusões. A maioria vem em busca de um tipo de auto-exílio aqui. Instalam-se entre a cidade de biombos. Cada andar são mais ou menos 700 pessoas que esquecem do mundo por turnos de até 12 horas. Nossa meta é: aceitamos o que você quiser dar. Se você quiser dar seu rim, aceitamos.

Não, você não está enganado, ela realmente é uma pessoa diferente. Mas, está longe de ser a única. Temos essa maldita mania de achar que somos especiais, diferentes. Quando você percebe o mundo numa diversidade tão grande se dá conta de que não é tão especial assim. E acho que ela veio para cá justamente para ser igual. Para se enfiar entre as 4 mil pessoas que trabalham sem parar por aqui, com suas histórias, dramas, diversões. Você não tem idéia do que acontece: casamentos, brigas, idéias, livros, filhos, orgias, amizades, solidariedade, pequenos comércios, jogos ilícitos, pregações, abortos, aluguéis, tráficos e tudo mais que sua mente possa criar. Nada disso importa muito. O que não conseguimos controlar totalmente são os malditos suicídios. Pelo menos um por mês. Isso é ruim para a empresa.

Ela rapidamente foi promovida. Teve diversos cargos na empresa em um espaço de tempo curto. Trabalhamos juntos, mas, de uma hora para outra, quando já tava ganhando uma boa grana, pediu as contas. Tentei argumentar, mas não adiantou. Queria mesmo era se perder na multidão. Não tinha competência para tantas promoções. Você vai me desculpar agora, mas tenho uma lista de demissões para ler.

*Trópico de Capricórnio, Henry Miller

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