Fragmento devolvido ao antigo dono

 

 

 

Sílvia encontrou o fragmento perdido no banco de trás do carro e me perguntou, exatamente como eu imaginava, quem era aquela que entrava em “nossa casa” durante a sua ausência? Por ser tão previsível, às vezes, me isento de pensar sobre o que ela seria para além daquela superfície que me deixa a amostra. Quando vejo nossas fotos: o sorriso, os cunhados, os sobrinhos, as crianças. Será que encontraria Sílvia sempre nesse mesmo lugar, na mesma posição?

Como eu, existem milhares nessa cidade, homens que têm uma esposa, um escritório e uma máquina de escrever antiga de recordação, além de uma amante que nunca conheceu. Por que Sílvia me reduz como se eu fosse o único ser a possuir essas coisas? Talvez porque eu seja o único que ela possui.

No sábado saímos com a família (nenhuma novidade). Não pude me esquivar de registrar minha ausência nas inúmeras câmeras digitais que rodavam nas mãos dos primos, meu olhar para além da lente, perseguindo a amante desconhecida estava tão claro, perguntaram-me se estava triste. Sim, talvez. Por isso lhe trouxe o fragmento perdido assim que vi o anúncio.

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