Esquecendo II

(homenagem a Pierre Verger)

 

Quando eu era criança, minha mãe fazia uma espécie de “magia branca”: escrevia o nome de alguém no papel, depois colocava um peso sobre. A finalidade era afastar essa pessoa indesejada da nossa casa. Na editora, havia pedacinhos de papel embaixo de toda a minha mobília, a maior parte eram nomes de poetas contemporâneos, mas eles nunca se afastavam, não com magia branca, também nunca tentei outra coisa, muito mais por falta de tempo, iria ao inferno para me livrar dos poetas.

Ela chegou acompanhada de um escritor senegalês muito polêmico, mas um dos nossos melhores clientes. Deixaram os originais de um romance.

 

…. Perguntei ao menino como se chamava, “Messias”, ele me disse, perguntei se o pai ou a mãe estavam, ficou calado. Entramos na casa e ele me apontava os objetos como se eu não soubesse o nome, como se não falássemos a língua, “mesa”, “sofá”, “cadeira”…

 

Era nitidamente o senegalês em todas as páginas, a vida, a guerra, o vazio. Declarações de um amor alucinado. Era quase impossível alguém amar daquela forma ainda hoje, nem os meus indesejáveis poetas. Por um motivo ou outro o livro não foi aprovado. Ela estava em Portugal, quando telefonou.  Uma semana depois, ela abriu a porta, disse apenas uma frase e saiu. Intempestiva. Apoteótica. E, claro, eu não precisava colocar nenhum peso sobre o nome dela. Ela não volta. Nunca. Me disseram.

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