Auto-Interrogatório

Lá estava o personagem: ajoelhado com uma arma nas têmporas. Tinha vontade de chorar, mas sentia-se engasgado, fraco, lento. A mão que segurava o revólver era forte, dessas que dificilmente hesitam em puxar o gatilho.

Depois do medo, que durou um tempo indescritível – eqüidistante entre a vida toda e os míseros instantes do ultimo gole do café -, depois do medo escorreu a sensação de vazio enorme, como uma página em branco, uma morte sonhada. Aquilo deixou ainda mais irritada a mão que segurava o revólver, pois, de fato, não tinha a intenção real de atirar. Explodir uma cabeça vazia não tem graça.

A mão que segurava o revólver perguntou: O que você tem a dizer sobre ela? A essas alturas o a idéia de morte tinha vazado pelo caminho e o homem pensava em muitas coisas.
Sobre ela?, perguntou. Eu não falo sobre ela. Eu ouço que os outros têm a dizer. Eu fiz questão de esquece-La e agora lembro através do que me contam por aí.

O homem com a arma coçou a cabeça. Não tem mais graça matar o sujeito. Ficou tão desanimado que nem o mau-humor sobreviveu.

Fácil pra você, não é mesmo? Fácil viver do que os outros dizem, lembrar a lembrança dos outros e contar-lhes como coisa sua. É fácil ser o cabeça vazia desta história.

Guardou a arma no bolso e foi-se.

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