Memórias

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.

(fragmento I-Juca-Pirama, GD)

e agora?
Como assim “e agora”? Prefiro que ele sofra até explodir a fazer o que você está propondo.
Você tem certeza?
Não. Mas não quero fazer, não posso arcar com essa culpa.
Culpa? Você não acha um exagero?
Quem sabe… faça o que quiser, afinal, apenas disse o que eu acho.

Sai fora! quando apareceu na porta de casa era velho, acabado. Entrou – provavelmente descartado pelos antigos donos para morrer ao relento (quem suporta um ser arrasado?) – e assentou-se no capacho da entrada com uma determinação irresistível. Ela o alimentou durante meses. Praticamente cego, feio, sujo, cheirava mal. Fazia suas necessidades em qualquer lugar olhando para o ar alheio as regras. Bastava um assobio e ele se mijava todo. A comida escorria-lhe da boca. Em todos os cantos da casa havia as marcas de decrepitude. Bosta e sangue nas esquinas das imensas peças do sobrado. Era nítida sua decadência e logo, logo se transformaria em algo terrível: uma língua travada: sangue pelas ventas: convulsões a cada meia-hora. Ainda assim, para todo o lado que eu andava dentro da casa, ele me seguia.

As árvores nuas da avenida, o zunido do vento invadindo as peças da casa, as janelas fechadas e Sai fora! – em seu silêncio autista – parecia confortavelmente enroscado em seu cobertor de lã verde.

Um ano depois, o veterinário disse que, talvez, eu devesse aliviar o sofrimento do bicho. “É com você”, receitou. Me deu um remédio, cujo líquido era azul, e uma seringa. “Nem me diz o que é isso”. Coloquei no bolso e fui tomar um café. Não bastasse tudo em que eu estava metido, agora minha imaginação fértil fazia zunir as orelhas. “Basta escrever. O resto tá acontecendo o tempo todo ao seu lado rapaz”, o velho me disse numa ocasião.

Um bicho moribundo. Uma mulher inconstante. Ela. O que dizer sobre ela? Que ela sumiu quando a coisa toda apertou? Óbvio. Ela me fez guardar para sempre o cheiro dos dias horríveis que precederam a perda de Sai Fora!.

Ela me deu o conteúdo. Fudeu e eu pari. E a tão grande foi a tristeza que eu fiz um samba. (final revisado)

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