tempo-esquecimento

Coisa boa não se escreve. Tenho raiva de papel, letras, histórias escritas. Acho inútil e falso. História se conhece pelo olho e pela voz. E são contadas pelo avô, pai, parentes, amigos, velhos, senhores, senhoras. São o legado das coisas boas feitas pelos nossos antepassados – as pessoas que construíram o mundo de verdade. E, felizmente, chegam até nós. Nesse mundo de livros, as pessoas evitam a vida e o contato com os outros. Tem tanto medo da existência que se tornam incapazes e insensíveis.

Conheci a velha por causa dela. Um dia chegaram aqui e, sem perguntar nada, começaram a se encontrar. Ela pediu para que – uma vez por semana – a velha fizesse pães, bolos e outras coisas. A velha não era de muita barganha e, considerando as delícias em questão, o pagamento era razoável. Toda semana a casa tinha novos sabores, cores e formas.

Como os livros eram meus, o quarto com a mesa era meu e as histórias eram minhas, a velha não foi com a minha cara. Ela se achava tão auto-suficiente, isolada etc, que nunca fez questão de falar comigo. De fato, depois que ela foi embora, passamos muito tempo agindo como se nada tivesse acontecido. A velha trazia a comida, pegava o dinheiro e sumia. Eu ficava enfiado dentro da salinha, abraçando meus livros e escrevendo inutilidades. Dediquei algumas das minhas inutilidades à velha.

Com a ausência dela, a casa adquiriu um silência esplêndido. O ranger e o sacudir das intermintências do meu chão, ao serem invadidas pela velha semanalmente, foram o maiores vestígios de gente que me dei ao luxo de perceber. Lapsos solitários, aos quais eu sentia necessidade de esvair-me na sombra do tempo. Não tinha vontade de sair para o mundo. Naqueles dias – e eu tinha consciência deste tempo – as cores predominantes casavam com os tons sem-graça-escuro, o indiferente-esfumaçado e o monótono-gelo. Eu tinha a única coisa que precisava: o cheiro dela que permanecia presente em mim. O que eu precisava para tudo isso era o esquecimento. Mas, quanto tempo ele tem?

Na última vez que a velha apareceu trouxe – além das guloseimas – um cesto de flores e um envelope amarelo. Supreendeu-me a letra desenhada no bilhete que trazia no início meu nome e três pontos de exclamação. Eram traços de alguém acostumado ao desenho das palavras. Além disso, aquelas linhas me encantaram de forma surpreendente (mesmo quando agrediam as adjacências da minha pessoa). Ainda assim, acuso que aquelas letras romperam o ciclo do esquecimento em forma de luto de onde eu observava o mundo.

Procurei pela velha. Depois do bilhete, ela sumira da história. Nunca mais soube dela. Para meu próprio conforto, criei para a velha uma existência de personagem: mãe de um jovem poeta romântico que, nas primeiras explosões dos dias e das virtudes, deu fim a própria vida em nome do amor evaporado. Quanto desgosto materno havia naquelas palavras que, ditas para mim, continham uma mágoa do mundo inteiro!!!!!!
Quanto ódio eu também teria dessas letras miseráveis…
Mas eu sou autor e não personagem.

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